Linguista alerta para o
risco de extinção dos
crioulos de São Tomé e
Príncipe

02.03.2026 - O linguista
Tjerk Hagemeijer alertou
que os crioulos de São
Tomé e Príncipe
enfrentam um “declínio
bastante acentuado” e
estão em risco de
extinção, com o
português a assumir-se
como a “língua
hegemónica” no
arquipélago.
O especialista em
crioulos do Golfo da
Guiné explicou, em
entrevista à agência
Lusa, que o panorama
linguístico são-tomense
sofreu uma reviravolta
desde o final do século
XIX, com a introdução do
regime de contrato e a
chegada de trabalhadores
de Angola, Moçambique e
Cabo Verde, o que
fragmentou o uso das
línguas locais.
“Hoje em dia,
praticamente todos os
são-tomenses e
pricipenses falam
português,
maioritariamente como
língua materna, e
observa-se um declínio
bastante acentuado das
línguas crioulas, que
ainda são línguas
faladas, mas todas estas
línguas estão em algum
grau de risco de
extinção”, disse
Hagemeijer, sublinhando
que, enquanto quase 98%
da população domina o
português, a soma dos
falantes de todas as
línguas crioulas locais
– forro, lung’ie e
angolar – é já inferior
a 50%.
O investigador
mostrou-se preocupado
com o caso da ilha do
Príncipe, que é o mais
crítico, restando apenas
“algumas centenas” de
falantes de lung’ie. Já
o forro, a língua da
ilha de São Tomé, viu o
seu número de falantes a
“reduzir-se para metade”
num intervalo de apenas
30 anos, entre 1980 e
2012, sendo atualmente
utilizado por cerca de
“um terço da população
são-tomense que fala
esta língua”.
“O português é o
principal jogador,
linguisticamente
falando, no contexto de
São Tomé e Príncipe”,
reforçou o linguista,
observando que, ao
contrário de Cabo Verde,
onde o crioulo mantém
uma vitalidade
dominante, em São Tomé o
português “conseguiu
vingar enquanto grande
língua franca”.
Hagemeijer explicou que
estas línguas descendem
de um “protocrioulo do
Golfo da Guiné”, formado
a partir do século XVI
no ciclo do açúcar, que
mais tarde se desdobrou
em quatro variantes
distintas devido ao
isolamento geográfico e
social. Contudo, a
hegemonia atual do
português, impulsionada
pela massificação do
ensino e mobilidade
social, interrompeu a
transmissão geracional.
Questionado sobre as
estratégias de
revitalização, o
especialista admitiu não
haver “receitas
milagrosas”, destacando
que a sobrevivência
destas línguas depende
tanto do Estado como da
base comunitária. “É
preciso mostrar às
populações que as suas
línguas têm relevância e
podem ter estatuto”,
defendeu, citando
exemplos de projetos de
curta duração, como a
colocação de idosos
falantes em creches na
ilha do Príncipe.
O linguista recordou
ainda que, em 2003,
houve uma tentativa
legislativa de
oficializar um alfabeto
para estas línguas, mas
a iniciativa não teve
continuidade prática.
“Infelizmente, no caso
de São Tomé e Príncipe,
não tenho grandes
motivos para otimismo.
A sociedade valoriza o
património linguístico
em teoria, mas na
prática utiliza o
português”, lamentou o
professor. Além de São
Tomé e Príncipe, o
investigador alertou
também para a situação
do fa d’ambô (fala do
Ano-Bom), o crioulo da
ilha de Ano-Bom, Guiné
Equatorial, que tem
entre quatro a cinco mil
falantes, sendo que
metade dos mesmos se
encontram noutra ilha, a
ilha de Bioko, a sul do
arquipélago lusófono.
A língua enfrenta a
concorrência do espanhol
e do pichi, crioulo de
base lexical inglesa,
agravada pela dispersão
da população anobonesa.
Tjerk Hagemeijer
concluiu que o termo
“crioulo” é, muitas
vezes, um rótulo
académico que esconde
uma enorme diversidade,
sublinhando que o
contacto linguístico é
uma “transversal à
humanidade”, embora os
contextos de escravatura
e plantação tenham dado
a estas línguas uma
história social “muito
específica”.
