Empresa são-tomense quer
recuperar terras que
Governo deu a
investidores russos

27.02.2025 - Uma
empresa são-tomense quer
reaver a posse de cerca
de 156 hectares de
terras que lhe foram
retirados pelo anterior
Governo e entregues a
investidores russos,
processo que considerou
"ardiloso", mas o
ex-ministro defende a
legalidade do ato.
"O que aconteceu foi uma
montagem mafiosa,
ardilosamente
arquitetada por um
conjunto de pessoas.
Estou a falar do
ex-primeiro-ministro
Patrice Trovoada, estou
a falar do ex-ministro
da agricultura Abel Bom
Jesus [...]. Fizeram
toda uma montagem no
sentido de me roubar a
posse que eu tinha desse
empreendimento",
denunciou Deodado Tiny,
sócio-gerente da empresa
San Ubá Budú.
O engenheiro agrónomo
são-tomense é
sócio-gerente da
sociedade criada no ano
2000 para a produção e
exportação de cacau numa
área de mais de 156
hectares que chegou a
empregar cerca de 70
trabalhadores e garantiu
a exportação de centenas
de toneladas de cacau.
O empresário disse que,
em maio de 2024, foi
surpreendido com uma
carta do anterior
Governo liderado pelo
ex-primeiro-ministro
Patrice Trovoada sobre a
decisão de retirar a
posse das terras à San
Ubá Budú e, apesar da
contestação, a decisão
não foi anulada pelo
Governo."Vieram já com
uma equipa de segurança
[...] que eles
contrataram aqui,
escorraçaram as pessoas
que estavam aqui a
trabalhar [...] nem
sequer permitiram que
nós puséssemos o cacau
que estava sendo
quebrado nas caixas de
fermentação", contou.
Deodato Tiny acusou os
ex-governantes
são-tomenses de negócios
obscuros com os
empresários
russos."Porque isso é
escandaloso [...] nunca
vi acontecer uma coisa
semelhante", lamentou.
Ouvido pela Lusa, o
ex-ministro da
Agricultura de São Tomé
e Príncipe Abel Bom
Jesus afirmou que o
processo de retirada das
terras fazia parte da
estratégia do anterior
Governo para estimular a
produção agrícola, e
também visou outras
pessoas, incluindo dois
ex-primeiro-ministros,
nomeadamente Guilherme
Posser da Costa e Maria
das Neves.
"A doutora Maria das
Neves também é uma das
visadas, que, se eu não
saísse do Governo, a
essa altura eu já teria
uma resposta ou já
poderia ter posicionado
[...]. Guilherme Posser
da Costa, eu visitei
também a propriedade
dele, também recebeu
notificação e começou a
agir", relatou.
Abel Bom Jesus assegurou
que a decisão de retirar
as terras à empresa San
Ubá Budú foi tomada após
as constatações que fez
numa visita ao local."Eu
visitei aquela média
empresa, o que eu vi é
uma empresa em falência,
a degradar-se a cada dia
a mais", disse Abel Bom
Jesus."E também é do meu
conhecimento que o
senhor [...] estava a
trabalhar no sentido de
vender aquela empresa
para um grupo português
que queria investir
(...). Como é que uma
coisa que não é tua,
você vende e ganha
centenas de milhões de
euros. O próprio Estado
anda aqui na falência?",
questionou.
O empresário admitiu que
a empresa estava "numa
situação financeira
relativamente difícil",
e que estava em contacto
"com parceiros
internacionais",
nomeadamente de
Portugal, da Arábia
Saudita e russos, "que
manifestaram interesses"
em "fazer
parceria".Quanto ao
grupo russo, esclareceu
que não se tratava do
mesmo ao qual o anterior
Governo atribuiu as
terras.
Os empresários
são-tomenses afirmaram
que recorreram à Justiça
em 2024 para reverter a
decisão do ex-ministro
da Agricultura, mas até
ao momento não tiveram
respostas. Perante a
morosidade da Justiça,
Deodado Tiny apelou ao
novo Governo, liderado
por Américo Ramos, para
anular a decisão.
"Da mesma forma que o
Abel Bom Jesus deu as
terras como ministro da
Agricultura aos russos,
se os russos não
estiverem a usá-la, o
atual ministro da
Agricultura tem o poder
de retirar. Mas se os
russos estão a fazer o
bom uso de terra, estão
a investir, estão a
ajudar na economia do
país, eles não têm como
retirar a não ser que
eles façam aquilo que
nós temos estado a fazer
em São Tomé e Príncipe,
que é agir pela
ilegalidade", reagiu
Abel Bom Jesus.
